segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Maratona

Esse é em homenagem ao Gabriel, recordista em frente ao computador:

Maratona

Um menino é um menino, do jeito de qualquer outro menino, acorda com remela no olho, caca no nariz e bafo de bosta de galinha. Corre quando é para andar, bebe dois copos de refrigerante quando tem só um pouco na garrafa e fica enrolando pra tomar banho.

Todas as férias eram iguais: não viajava, só ficava vendo desenho, brincando com os colegas do condomínio e, principalmente, na frente do computador, jogando. Não importava o tipo de jogo, o importante era jogar, e jogar muito. Às vezes começava a maratona às 10hs da manhã (afinal, ninguém é de ferro, nas férias é importante dormir bastante durante a manhã), que durava até a hora de dormir, ou melhor, a hora que seu pai o obrigava a dormir.

Era uma sexta-feira e seus pais lhe falaram que estavam saindo de viagem e que ele não poderia ir, já que o pai possuía uma moto. Isso pra ele já era normal, tinha aprendido a fazer seu macarrão instantâneo e preparar seu lanche na sanduicheira elétrica (tomar banho e escovar os dentes era irrelevante nesses casos).

Seis da tarde. Seus pais saíram, no mesmo instante ele preparou seu lanche e sentou na frente do computador e, para não se perder no tempo, ligou a TV. Primeiro ficou só olhando a tela do computador, e logo sujou o mouse com sua mão manteigosa na hora de escolher o usuário do windows.

Seis e dez, começou a jogar e o tempo foi passando. E nem notou quando o Jô estava mandando o seu famoso “Beijo do gordo” de madrugada. E continuava a jogar.

Quando completaram vinte e quatro horas ele se lembrou de escovar os dentes, mas escovar pra que, se não sairia da frente do computador?

Quarenta e oito horas jogando, e começou a ficar sonolento. Foi quando olhou em sua mão esquerda e notou que a unha de seu dedo indicador havia desaparecido e no local tinha uma conecção USB e, automaticamente, conectou-se no gabinete. No mesmo instante uma luz surgiu de seus olhos e as informações começaram a ser armazenadas em seu cérebro-hd de 9.000.000 giga de memória. Sentiu uma necessidade imensa de se ligar a uma tomada, pois estava ficando fraco. Olhou para seu pé e viu que havia um plugue 110 volts ali, e ligou-se no estabilizador.

Já estava conectado há algumas horas, e cada vez mais estava se parecendo um computador. Sua pele já estava dura e fria, como uma capa de metal e seus cabelos tinham se transformado em transistores, fios e chips. Suas orelhas já eram auto-falantes. Já não conseguia se mexer mais, não sentia fome nem frio e por um instante começou a pensar que não tinha mais volta. Não poderia sair mais de seu apartamento, não poderia abraçar seus pais nem brincar com o cachorro do seu tio. E entrou em pânico.

E quando seus pais o vissem ali daquele jeito, o que será que fariam? Brigariam com ele e logo, quando já fosse um modelo ultrapassado, ele seria doado a algum colégio e seria substituído por um bom e novo laptop.

E foi aí que começou a se sentir zonzo e sentiu a mão de seu pai sacudindo-o e logo dizendo: ”_ Já falei pra você não ficar jogando muito tempo, olha aí... já tem uma hora que chegamos e você dormindo na frente desse computador. Com certeza teve algum pesadelo. Agora vê se toma um banho e vai dormir.” FiM