terça-feira, 23 de setembro de 2008

Cap. 2 - A Vila

Já estávamos caminhando ligeiramente e silenciosamente por entre a densa floresta durante um bom tempo. O único som que se ouvia era de meus pés pisando sobre as folhas úmidas no chão e às vezes quebrando algum arbusto ou pisando em alguma poça de água. Guardião era totalmente silencioso, o que dava a impressão de que ele estava levitando enquanto andava.
A sensação de que estava sendo observado era muito forte e às vezes tinha a impressão de ter visto olhos em meio a escuridão. Olhos famintos. E cada sensação me dava mais força para aumentar o ritmo frenético de meus passos.
Em um momento senti que estava prestes a ser agarrado quando vi as primeiras luzes aparecendo em meio a floresta, acelerei meu passo e deixei Guardião para trás, porém antes de sair da floresta ele me chamou:
_Humano, apareça sem mim e seja morto.
_Bem, se você me diz. Fique a vontade _ e estendi a mão oferecendo o caminho para ele.
A floresta foi dando lugar a uma área desmatada, com alguns poucos arbustos e árvores pequenas. Algumas casas já começavam a tomar forma com as luzes. Eram bem estranhas, pareciam grandes caixotes cinza, sem janelas e com grandes portas de ferro. Não havia limitações de terreno, e as casas formavam uma rede de ruas estreitas.
Antes de nos aproximarmos mais das casas, Guardião se levantou sobre suas patas trazeiras e adquiriu uma postura ereta. Isto me deixou, mais uma vez, bastante confuso. Um cão que falava e que agora andava sobre duas patas. Um cão bípede.
_Não diga nada humano. Sei que está confuso, mas em breve entenderá tudo que está achando estranho. Agora vamos entrar em Pot Minor, que é uma vila de trocas. Aqui você consegue qualquer coisa, desde que você tenha algo para dar em troca.
Logo fomos entrando em uma das estreitas vielas de Pot Minor. Era um lugar sujo, o cheiro de excremento tornava o ar pesado e difícil de respirar. Aos poucos fui observando os habitantes, que não eram humanos, mas sim animais bípedes. Como se fossem um híbrido humano-animal. Alguns possuíam corpo semelhante a um humano forte, outros possuíam o corpo animal correspondente.
Um porco com corpo humano, e vestido com uma roupa militar se aproximou de mim. Ví que ele possuía algumas medalhas e uma arma em sua cintura. Chegou seu focinho bem perto de mim, fungou e soltou um som gutural.
_Ele vai ver Arimã seu porco, saia de perto dele _ Guardião disse ao suíno militar que me cheirava _ Este não é para vocês.
_Rrrrruuuuuuuc, Uac, uiiic _ roncou o suíno.
_Está certo, mas depois ele virá se apresentar, não temos muito tempo agora.
_O que ele disse? _ Perguntei.
_Ele está a espera de alguns soldados e achou que você era um deles. Após a conversa com Arimã, deverá vir falar com ele. É ele quem comanda Pot Minor e é ele quem pode te ajudar por aqui.
Seguimos por caminhos estreitos e seres estranhos. Gambás, papagaios, porcos, avestruzes, havia todo o tipo de animal. Até um tipo muito estranho de homem-elefante que possuía cerca de metro e meio de altura com uma tromba pequena, mas orelhas que chegavam próximas aos seus pés. Todos me olhavam com muita curiosidade, pelo jeito humanos não eram muito comuns por aqui.
Quanto mais tempo passava neste local, eu via que minhas memórias estavam sendo esquecidas. Já não me lembrava de meu nome, só do modo como vim parar neste local. Sentia uma angústia, uma nostalgia, até mesmo saudade, mas não conseguia definir muito bem por quê ou por quem.
O caminho por entre as casas nos levou a uma praça onde funcionava um mercado. Havia todo o tipo de animal trabalhando por aqui em várias barracas e bancas de venda e troca de materiais. No limite da praça havia um muro alto, algo em torno de uns 15 metros de altura.
Em uma banca um homem-urso vendia maçãs, noutra um homem-tigre vendia espadas. Haviam vendedores de rifles, alforjes, pedras, explosivos, escravas, enfim, havia quase tudo. Alguns mercenários ficavam a espreita aguardando trabalho, e pelas suas vestimentas, eram muito bem pagos.
Andamos em direção ao muro, chegamos a uma banca bem verossímil a uma banca de cartomante: formato cônico e feita de um tecido azul cheio de estrelas brancas. Do lado de fora havia uma pequena "senhora-gato" usando um vestido vermelho, vários braceletes e um pingente na testa. Seu rabo saia da parte de trás do vestido e ficava dançando como uma serpente encantada.
_Guardiãooooooo, miauuuuuuuuuuu. Pronto para a passagem, miauuuuuuuuuu?
_Sim Odara, nos envie por favor _disse o cão branco.
_Humano belo, miauuuuuuuuu. Espero que goste de meus serviços, miauuuuuuuuuu.
Ela se aproximou de nós, enfiou a pata em um pequeno saco de veludo vermelho que trazia a tira-colo e jogou sobre nós um pó brilhante. No mesmo instante começou uma sensação de formigamento e um zumbido muito forte em meus ouvidos. Minha visão foi se apagando. E adormeci.

[continua]

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Cap. 1 - A Passagem

Já faz algum tempo que estou aqui e muitas pessoas já estão por perto. Sinto o cheiro de borracha queimada e o gosto métalico do sangue. O barulho estrondoso de segundos antes se cessara _ uma buzina, derrapar de pneus e o estampido seco do impacto.
Várias coisas começaram a passar pela minha mente. O rosto do motorista que me atropelou. O último café que tomei, o encontro com os amigos que eu não fui, a última vez que meu cachorro quis brincar comigo e eu o escurracei por ter pulado em mim, o almoço em família de domingo que não fui por ter acordado tarde.
Meu Deus!!! Quanta coisa deixei de fazer em minha vida. Muitos lugares incríveis que poderia ter visitado, ou mesmo ter ido em um lugar comum, como uma praça, e ter ficado sentado olhando o tempo e as bricadeiras das crianças.
Ouço barulho de sirenes em meio ao burburinho de vozes que vai se distanciando e a claridade vai se dissipando. E em pouco tempo só há silêncio e escuridão.
Ficou algum tempo assim, não sei dizer quanto _ segundos, minutos ou horas? Não sei, mas foi tudo muito tranquilo, até que a luz começou a reaparecer.
Dessa vez a claridade era mais sombria e eu não estava mais na rua. Agora estava próximo de um grande lago onde a névoa não deixava ver muito distante em sua superfície e o céu era vermelho como o crepúsculo do fim do dia.
Eu ainda estava sentado no chão quando uma garotinha se aproximou de mim, estendeu a mão e me chamou por um apelido íntimo. Me levantei, segurei sua mão e caminhamos até as margens do lago, sem trocarmos uma única palavra ou pensamento. Parei bem próximo do lago, sentindo meus pés se afundarem um pouco na lama viscosa, e larguei a mão da garotinha. No mesmo momento virei para olhá-la mas ela já não estava mais lá.
Olhei para o lago e notei uma mancha que se formava em meio às brumas. Aos poucos ela foi tomando forma e logo se mostrou ser um pequeno barco. Havia uma pessoa nele, que era quem o guiava com um longo varjão. Bastou algum tempo para que o barco chegasse às margens, e bem próximo aos meus pés.
_Esperou muito por mim, meu caro? _ disse o homem.
_Quem é você?
_Sou aquele que ajuda quem precisa de ajuda, mas pode me chamar de Barqueiro.
_O que estou fazendo neste lugar?
_Entre no barco, posso te explicar no caminho.
_Caminho para onde? Onde quer me levar?
_Já te disse uma vez, entre no barco, no caminho te explicarei.
Não havia mais opções, então me embarquei junto daquela figura estranha.
O barqueiro usava uma bermuda bastante puída, que parecia ser uma antiga calça jeans. Não usava nenhuma camisa, sua pele amarelada possuía rachaduras ressecadas pelo vento quente. Seus olhos? Não os ví, pareciam ser duas órbitas vazias que se escondiam atrás dos cabelos longos e crespos caídos por cima dos olhos.
A superfície do lago era borbulhante e eram dessas bolhas que saía a bruma que impedia a visão completa da outra margem. Seu cheiro era de um rio morto, poluído. Pensei como aquele ser aguentava viver respirando aquele odor fétido.
_Cheiro ruim, meu caro? _ riu o barqueiro.
Me assustei e virei para ele no mesmo momento, estaria ele lendo meus pensamentos? Ou eu estava pensando em voz alta?
_O que aconteceu comigo, barqueiro? _ perguntei enquanto ele nos guiava.
_Você passou para o lado de cá, a forma eu não sei como, mas o lugar é pra onde todos vão quando sucumbem em outro mundo.
_Sucumbem? Você quer dizer que morri?
_Não _ disse o barqueiro_ ninguém morre. Existem outros mundos além deste e você apenas foi transferido.A morte é apenas uma passagem. Pode-se dizer que você não tinha importância no seu, e vai ficar vagando de mundo em mundo até achar uma ocupação relevante. Veja eu, por exemplo: não tenho idéia de quantos mundos rodei até chegar neste, e foi aqui que achei minha tarefa principal, ajudar os que precisam atravessar o lago para irem de encontro ao mestre.
_Quem é o mestre? Deus? Diabo?
_Não, não... esqueça tudo que aprendeu sobre isso. A verdade é outra, mas não serei eu quem vai te explicar.
Quando olhei em frente, já estávamos nos aproximando da outra margem do lago, não havia ninguém nos esperando, estava tudo muito calmo, mas o clima sombrio ainda tomava conta e me assustava. Bem adiante da margem havia uma floresta e uma montanha, em sua base várias luzes estavam acesas, que aparentavam ser um vilarejo. Mais acima das luzes uma grande sombra escura rompia as núvens: uma espécie de castelo, só que sem brilho. Parecia ser feito de algum material opaco.
Chegando bem próximo à margem, após um piscar de olhos, notei que havia um cão sentado à uns dez metros da água podre, parecia estar nos esperando. Ele era branco como o gelo, uma espécie de pastor albino. Suas orelhas estavam em estado de alerta e bem eretas. Sua boca estava entreaberta no instante que o vi, mas assim que comecei a olhá-lo ele a fechou, o que o deixou com um semblante de mau, semelhante a um lobo.
Desembarcamos e o cão veio em nossa direção. Me cheirou e sentou ao meu lado. E disse o barqueiro:
_Pronto, meu caro. Minha missão foi cumprida, agora te entrego ao Guardião, ele te encaminhará até onde se fizer necessário.
_O que? Agora você vai me deixar com um cão? Só pode estar brincando...
_Não sou um cão _ disse o animal, enquanto eu não escondia minha cara de espanto _ Sou o Guardião, todos os cães e lobos foram criados à minha imagem e semelhança, não dirija a palavra a mim, a menos que eu solicite. Não me diga o que fazer, não reclame, apenas me siga.
_Aonde vamos? _ perguntei ao Guardião.
_Cale a boca, já te dei as instruções. Apenas me siga. Quanto a você, Barqueiro tagarela, vá embora, já deve ter mais alguém te esperando.
_Cachorro imprestável, um dia te levo no meu barco e jogo para o lago te devorar.
_Vamos embora logo humano, ainda temos muito o que andar hoje.
E saímos andando, não voltei a olhar para o Barqueiro. Tudo estava muito estranho, minha impressão do que era morte mudara totalmente de umas horas pra cá. Agora a única coisa que eu sabia era que tinha que seguir um cachorro que falava e se dizia ser um guardião.
Já estava escurecendo e seguimos andando em direção às luzes no pé da montanha em uma trilha, aos poucos a vegetação aumentava e íamos adentrando nela. Pouco tempo depois estávamos dentro de uma floresta escura e a trilha parecia ter desaparecido, e eu seguia o Guardião. Não trocamos nenhuma palavra até que ele disse:
_Arimã.
_O que? _ perguntei.
_É quem você irá conhecer. Arimã. Nunca ouviu falar? Acho que não, certo? No início você não vai entender muito bem o que se passa, mas em breve sua missão estará bem definida. Estamos te esperando há um bom tempo, mas não pense que você é algum tipo "escolhido" ou coisa assim, isso não acontece por aqui. Apenas escolhemos pessoas que possuem habilidades especiais que não eram usadas em seu mundo.
_Qual habilidade? Apenas sou um comerciante, o conhecimento que possuo é comum onde eu vim.
_Você não conhece sua habilidade, em breve ela lhe será apresentada. Agora cale-se se não quiser virar alimento de selvagens.
Assim continuamos nossa caminhada. Eu calado pensando no que viria a ser essa habilidade e lembrando de tudo que deixei para trás e que, com certeza, eu não verei mais.

[continua]

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Apenas uma Borboleta

Era uma festa. Toda vez que eu reparava eles estavam trocando olhares, ele de longe e ela ao meu lado.
Não era a primeira vez que eu o via, na época da faculdade tivemos alguns desentendimentos, mas não imaginava nunca que nos encontraríamos novamente e ainda mais neste tipo de situação.
Minha cerveja acabou e pedi que ela buscasse mais um copo para mim enquanto eu conversava com um amigo. Ela saiu e eu a segui com meu olhar, não muito distante ele passou e esbarrou nela trocando olhares e sorrisos, ele se voltou segurou sua mão e lhe disse algo ao ouvido. Ela balançou a cabeça afirmativamente e saiu para o bar. Ele a seguiu.
No mesmo instante senti uma raiva tomar conta de mim e já estava decidido a acabar com a situação de uma vez por todas: iria acabar com a raça desse cara que entrou em meu caminho.
Fui andando em direção dos dois e no momento que cheguei bem perto decidi que o problema não era com ele e sim com ela, pois se a situação chegou a este ponto, alguma coisa estava errada. Muito errada.
Segurei em seu braço e a arrastei de forma sutil para fora da festa, andamos sem nos falar pela rua até uma praça próxima. Pedi para que ela se sentasse, mas ela disse que não.
Conversamos bastante, ela sóbria e eu levemente embriagado, falei que não seria dessa forma que daríamos um fim ao nosso casamento, mas parecia que por mais que eu falava, as palavras se viravam contra mim e ao que me parecia, eu não vinha sendo um bom marido e amante e já era tarde demais para um recomeço.
Tentei argumentar de todas as formas, mas no final ela resumiu a situação com algumas palavras:"_Sou uma borboleta que saiu do casulo agora, mas que precisa procurar outra flor para pousar" _ e saiu andando de braços cruzados, voltando para a festa.
E eu fiquei lá parado, observando-a seguir em frente em seu caminho, enquanto o pior sentimento de toda minha vida tomava conta de mim e todo meu futuro incerto agora mudava de direção, porém sem ela.