Já faz algum tempo que estou aqui e muitas pessoas já estão por perto. Sinto o cheiro de borracha queimada e o gosto métalico do sangue. O barulho estrondoso de segundos antes se cessara _ uma buzina, derrapar de pneus e o estampido seco do impacto.
Várias coisas começaram a passar pela minha mente. O rosto do motorista que me atropelou. O último café que tomei, o encontro com os amigos que eu não fui, a última vez que meu cachorro quis brincar comigo e eu o escurracei por ter pulado em mim, o almoço em família de domingo que não fui por ter acordado tarde.
Meu Deus!!! Quanta coisa deixei de fazer em minha vida. Muitos lugares incríveis que poderia ter visitado, ou mesmo ter ido em um lugar comum, como uma praça, e ter ficado sentado olhando o tempo e as bricadeiras das crianças.
Ouço barulho de sirenes em meio ao burburinho de vozes que vai se distanciando e a claridade vai se dissipando. E em pouco tempo só há silêncio e escuridão.
Ficou algum tempo assim, não sei dizer quanto _ segundos, minutos ou horas? Não sei, mas foi tudo muito tranquilo, até que a luz começou a reaparecer.
Dessa vez a claridade era mais sombria e eu não estava mais na rua. Agora estava próximo de um grande lago onde a névoa não deixava ver muito distante em sua superfície e o céu era vermelho como o crepúsculo do fim do dia.
Eu ainda estava sentado no chão quando uma garotinha se aproximou de mim, estendeu a mão e me chamou por um apelido íntimo. Me levantei, segurei sua mão e caminhamos até as margens do lago, sem trocarmos uma única palavra ou pensamento. Parei bem próximo do lago, sentindo meus pés se afundarem um pouco na lama viscosa, e larguei a mão da garotinha. No mesmo momento virei para olhá-la mas ela já não estava mais lá.
Olhei para o lago e notei uma mancha que se formava em meio às brumas. Aos poucos ela foi tomando forma e logo se mostrou ser um pequeno barco. Havia uma pessoa nele, que era quem o guiava com um longo varjão. Bastou algum tempo para que o barco chegasse às margens, e bem próximo aos meus pés.
_Esperou muito por mim, meu caro? _ disse o homem.
_Quem é você?
_Sou aquele que ajuda quem precisa de ajuda, mas pode me chamar de Barqueiro.
_O que estou fazendo neste lugar?
_Entre no barco, posso te explicar no caminho.
_Caminho para onde? Onde quer me levar?
_Já te disse uma vez, entre no barco, no caminho te explicarei.
Não havia mais opções, então me embarquei junto daquela figura estranha.
O barqueiro usava uma bermuda bastante puída, que parecia ser uma antiga calça jeans. Não usava nenhuma camisa, sua pele amarelada possuía rachaduras ressecadas pelo vento quente. Seus olhos? Não os ví, pareciam ser duas órbitas vazias que se escondiam atrás dos cabelos longos e crespos caídos por cima dos olhos.
A superfície do lago era borbulhante e eram dessas bolhas que saía a bruma que impedia a visão completa da outra margem. Seu cheiro era de um rio morto, poluído. Pensei como aquele ser aguentava viver respirando aquele odor fétido.
_Cheiro ruim, meu caro? _ riu o barqueiro.
Me assustei e virei para ele no mesmo momento, estaria ele lendo meus pensamentos? Ou eu estava pensando em voz alta?
_O que aconteceu comigo, barqueiro? _ perguntei enquanto ele nos guiava.
_Você passou para o lado de cá, a forma eu não sei como, mas o lugar é pra onde todos vão quando sucumbem em outro mundo.
_Sucumbem? Você quer dizer que morri?
_Não _ disse o barqueiro_ ninguém morre. Existem outros mundos além deste e você apenas foi transferido.A morte é apenas uma passagem. Pode-se dizer que você não tinha importância no seu, e vai ficar vagando de mundo em mundo até achar uma ocupação relevante. Veja eu, por exemplo: não tenho idéia de quantos mundos rodei até chegar neste, e foi aqui que achei minha tarefa principal, ajudar os que precisam atravessar o lago para irem de encontro ao mestre.
_Quem é o mestre? Deus? Diabo?
_Não, não... esqueça tudo que aprendeu sobre isso. A verdade é outra, mas não serei eu quem vai te explicar.
Quando olhei em frente, já estávamos nos aproximando da outra margem do lago, não havia ninguém nos esperando, estava tudo muito calmo, mas o clima sombrio ainda tomava conta e me assustava. Bem adiante da margem havia uma floresta e uma montanha, em sua base várias luzes estavam acesas, que aparentavam ser um vilarejo. Mais acima das luzes uma grande sombra escura rompia as núvens: uma espécie de castelo, só que sem brilho. Parecia ser feito de algum material opaco.
Chegando bem próximo à margem, após um piscar de olhos, notei que havia um cão sentado à uns dez metros da água podre, parecia estar nos esperando. Ele era branco como o gelo, uma espécie de pastor albino. Suas orelhas estavam em estado de alerta e bem eretas. Sua boca estava entreaberta no instante que o vi, mas assim que comecei a olhá-lo ele a fechou, o que o deixou com um semblante de mau, semelhante a um lobo.
Desembarcamos e o cão veio em nossa direção. Me cheirou e sentou ao meu lado. E disse o barqueiro:
_Pronto, meu caro. Minha missão foi cumprida, agora te entrego ao Guardião, ele te encaminhará até onde se fizer necessário.
_O que? Agora você vai me deixar com um cão? Só pode estar brincando...
_Não sou um cão _ disse o animal, enquanto eu não escondia minha cara de espanto _ Sou o Guardião, todos os cães e lobos foram criados à minha imagem e semelhança, não dirija a palavra a mim, a menos que eu solicite. Não me diga o que fazer, não reclame, apenas me siga.
_Aonde vamos? _ perguntei ao Guardião.
_Cale a boca, já te dei as instruções. Apenas me siga. Quanto a você, Barqueiro tagarela, vá embora, já deve ter mais alguém te esperando.
_Cachorro imprestável, um dia te levo no meu barco e jogo para o lago te devorar.
_Vamos embora logo humano, ainda temos muito o que andar hoje.
E saímos andando, não voltei a olhar para o Barqueiro. Tudo estava muito estranho, minha impressão do que era morte mudara totalmente de umas horas pra cá. Agora a única coisa que eu sabia era que tinha que seguir um cachorro que falava e se dizia ser um guardião.
Já estava escurecendo e seguimos andando em direção às luzes no pé da montanha em uma trilha, aos poucos a vegetação aumentava e íamos adentrando nela. Pouco tempo depois estávamos dentro de uma floresta escura e a trilha parecia ter desaparecido, e eu seguia o Guardião. Não trocamos nenhuma palavra até que ele disse:
_Arimã.
_O que? _ perguntei.
_É quem você irá conhecer. Arimã. Nunca ouviu falar? Acho que não, certo? No início você não vai entender muito bem o que se passa, mas em breve sua missão estará bem definida. Estamos te esperando há um bom tempo, mas não pense que você é algum tipo "escolhido" ou coisa assim, isso não acontece por aqui. Apenas escolhemos pessoas que possuem habilidades especiais que não eram usadas em seu mundo.
_Qual habilidade? Apenas sou um comerciante, o conhecimento que possuo é comum onde eu vim.
_Você não conhece sua habilidade, em breve ela lhe será apresentada. Agora cale-se se não quiser virar alimento de selvagens.
Assim continuamos nossa caminhada. Eu calado pensando no que viria a ser essa habilidade e lembrando de tudo que deixei para trás e que, com certeza, eu não verei mais.
[continua]
terça-feira, 16 de setembro de 2008
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Um comentário:
Impressionante! Tudo começou meio "Crash", depois foi uma espécie de viagem metafísica. Sua versão de Caronte, o barqueiro da Divina Comédia. Sem contar que isso tudo começa a se assemelhar uma certa busca de um Pistoleiro. Excelente mesmo!!! MUndos paralelos, dons, seres oníricos. Parabéns Tosta, nossas trocas estão começando a render frutos!!!
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